quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Coração gelado.

Está frio, realmente muito frio para esta altura do ano; um facto estranhamente curioso para uma alma inquietante como a de Lara.
-Só espero que não chova, não me apetece nada ir para a escola com mau tempo…
Pelo sim, pelo não, leva um casaco mais quente do que o habitual, um guarda-chuva na mão, e embora com pouca vontade lá segue o seu caminho.
-Com esta chuva é óbvio que não o vou ver. De certeza que vai de carro, fogo!
Bate com o pé na poça de água que se formara ao longo daqueles minutos de chuva, e molha as calças que delineavam o seu corpo impaciente.
Fábio era o rapaz que tanto desconforto lhe dava, a ela, uma rapariga que apreciava o conforto simples. Namoraram durante um ano e três meses, era tudo perfeito. Moravam na mesma rua, conheciam-se desde que viram o mundo pela primeira vez, deram-se bem ao primeiro olhar, eram do mesmo clube de futebol, partilhavam os mesmos gostos musicais; alma gémea um do outro. Porém, o que mais ironicamente os dividia, eram as suas almas. Lara queixava-se do facto de concordarem sempre com as mesmas coisas, até que chegou um momento em que discordaram do que sentiam um pelo outro.
-Lara, já chega! Sabes que eu te amo, para quê tudo isto?
-Eu é que não te percebo. Tu não podes ser tão perfeito como mostras ser.
-Percebe que eu te amo e pára com isto, por favor.
-Tu lá sabes. Tenho de ir ter com a minha irmã, até logo.
Lara vira as costas.
-Não te despedes?
-Para quê? Amanhã volto a ver-te.
Durante cinco meses não se encontraram; ele passou a ir de carro para a escola, os seus horários não eram compatíveis e sempre que ia lá a casa ninguém lhe abria a porta, ou então respondiam “Ele não está.”
-Mana, recebeste uma carta.
-Deve ser da escola, já vejo.
-Não, nem vem assinada…
Lara pega desconfiadamente na carta e vai para o seu quarto. Abre o envelope, e lê-a. Começa assim:
“Querida Lara, sei que não nos temos visto, mas fi-lo para sentires saudades minhas, não me julgues. Estás farta que sejamos tão iguais? Pois agora os nossos caminhos são tudo menos isso, e desculpa de tudo o que fiz para te agradar. Explico-te já porquê: Eu conheço-te a ti desde o tempo que me conheço a mim, e desde sempre me habituei a ti, aprendi a gostar de quem eras. Porque serás que gostas tanto de futebol? Porque será que eu gosto tanto de cozinhar? Simplesmente nós somos a ligação um do outro e foi contigo que construí o meu pequeno mundo. Sei que estás com frio; vejo-o todos os dias na tua expressão enquanto caminhas no mesmo percurso que eu, mas de lado contrário. E esse frio que tu sentes, vem da necessidade que tens em ter-me aí a preencher o teu cantinho de felicidade (…) Amanhã não chove se quiseres podemos ir juntos para a escola.”
-Tu estavas tão perto, mas sentia-te tão distante…
-Amor, por vezes a distância não importa. Posso estar perto e nem sequer me importar contigo, como posso estar na outra ponta do país e amar-te mais do que ninguém.
-Oh, eu sei. Mas vou ter-te sempre comigo.
“Querida Lara, lembras-te da nossa última conversa? Pois, eu parti hoje às cinco da manhã para o Porto, não te posso explicar porquê. Não chores, e lembra-te que ter-me-ás sempre contigo, mesmo que não esteja ao pé de ti, eu amo-te.”
Mas nós nem nos despedimos…
Para Fábio nunca será preciso uma despedida; ele voltará nem que seja cinco meses ou cinco anos depois.
Lara começa a chorar, lá fora a chuva cai, e o frio faz-se sentir mais do que nunca.

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