segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Bilhete sobre rodas.

Um dia, Fernando sai de casa pela manhã, uma manhã como todas as outras, como todos os dias na sua simples vida. Acorda por volta das sete horas, algures numa aldeia do Alentejo, rodeado por uns e por outros moradores que de uma maneira ou de outra acompanham o seu ritmo diário. Depois de se aperaltar minimamente, desce até ao fundo da rua de encontro à mercearia. Sim só me faltam duas maçãs, isto é rápido.
-Boa tarde… A senhora Beatriz, não está cá?
-Ah não, teve de ficar em casa com o neto, nada de grave.
-E a senhora é…?
-Maria.
Uma hora. Quando se resumia a demorar no máximo dez minutos, demora mais tempo do que aquele que desejava. Entre conversas sobre isto e aquilo, entre sorrisos e olhares, Fernando recorda-se.
-Desculpe, mas preciso mesmo das maçãs.
-Oh, com tanta conversa distraí-me, vou já.
“Você é linda.” e pousa o papel em cima do balcão, já meio amachucado.
Maria afasta-se da banca e aí ele repara: ela era paraplégica, andava numa cadeira de rodas. Maria entrega-lhe o saco e lê o bilhete.
-Pois, agora já não concorda com isso, estou certa?
-Sim, está certa. Já não concordo.
O que Fernando queria dizer era que naquele momento ele teve a certeza da linda pessoa que aquela mulher era, que possuía uma força de vontade extremamente fantástica. E disse-lhe tudo isso. E mais alguma coisa.
Daria isto uma bela história de amor? Não, para eles o tempo de se apaixonarem já tinha passado, mas para quem teve a coragem de deixar um bilhete como fazem em tempos os jovens deslumbrados, daí a cair-se de amores, era apenas um passo.
Naquela manhã, fez a tarte de maçã tal como planeara, com todos os ingredientes, e mais um especial: a companhia de Maria; que dali a diante se tornara cada vez mais fantástica; parecia que cada segundo que passava com ela tinha de ser escrito, fotografado, ou de algum modo recordado; ou talvez ele se estivesse a apaixonar, e ela continuasse exactamente a mesma, como sempre foi. 
Um dia, a sua montanha russa de emoções, que é a vida, parou de rodar, e quando esse momento chegou, ele foi à gaveta que se encontrava na sala, agarrou no bilhete já velho e gasto, e escreveu por baixo "Continuas linda.", e deixou-o no mesmo local onde o tinha deixado um dia, há muitos anos, na banca da mercearia, com a esperança que ela perguntasse "Já não concordas com isso, pois não?". E se assim fosse, ele não responderia, sorriria apenas.

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